A
LINGUÍSTICA COGNITIVA
UMA BREVE INTRODUÇÃO
A UM NOVO PARADIGMA EM LINGUÍSTICA
Augusto Soares da Silva
Universidade Católica - Faculdade de Filosofia de Braga
1. Introdução
A Linguística Cognitiva é uma abordagem da linguagem perspectivada como
meio de conhecimento e em conexão com a experiência humana do mundo. As
unidades e as estruturas da linguagem são estudadas, não como se fossem
entidades autónomas, mas como manifestações de capacidades cognitivas gerais,
da organização conceptual, de princípios de categorização, de mecanismos de
processamento e da experiência cutural, social e individual.
São temas de especial interesse da Linguística Cognitiva os seguintes:
as características estruturais da categorização linguística (tais como
prototipicidade, polissemia, modelos cognitivos, metáfora e imagens mentais),
os princípios funcionais da organização linguística (iconicidade e
naturalidade), a interface conceptual entre sintaxe e semântica, a base pragmática
e ligada à experiência da linguagem-no-uso e a relação entre linguagem e
pensamento (incluindo questões sobre o relativismo e sobre os universais
conceptuais).
A Linguística Cognitiva surgiu nos finais da década de 70 e princípios
da de 80, impulsionada, por um lado, pelo interesse pelo fenómeno da significação
(já evidenciado, aliás, pelo movimento da Semântica Gerativa, mas, ao contrário
deste, fora da tradição gerativa) e, por outro, pela investigação psicolinguística
de Eleanor Rosch (Rosch 1978, Rosch & Mervis 1975) sobre o papel fundamental
dos protótipos no processo de categorização. Só em 1990 é que se
institucionaliza, com a criação da "International Cognitive Linguistics
Association", da revista "Cognitive Linguistics" (dirigida por
Dirk Geeraerts) e da colecção "Cognitive Linguistics Research"
(editada por René Dirven e Ronald Langacker e publicada por Mouton de Gruyter).
Os representantes principais da Linguística Cognitiva são os norte-americanos
(de Califórnia) George Lakoff (Lakoff 1987, Lakoff & Johnson 1980, Lakoff
& Turner 1989), Ronald Langacker (1987, 1990, 1991) e Leonard Talmy (1978,
1983, 1985, 1988a,b). Mas, e ao mesmo tempo, surgem também na Europa
importantes trabalhos e centros de investigação, em particular na Bélgica e
na Holanda. Uma visão de conjunto da investigação em Linguística Cognitiva
pode encontrar-se em Rudzka-Ostyn ed. (1988), Tsohatzidis ed. (1990), Geiger & Rudzka-Ostyn eds. (1993),
Taylor & MacLaury eds. (1995), Casad ed. (1996), Fauconnier & Sweetser
eds. (1996), Verspoor, Lee & Sweetser eds. (1997),
Hiraga, Sinha & Wilcox eds. (1997). Em Taylor (1995), encontra-se uma síntese
sobre os aspectos da categorização linguística e, em Ungerer & Schmid
(1996), uma introdução actualizada à Linguística Cognitiva. E está já em
peparação uma nova Série de textos introdutórios versando as várias áreas
do estudo da linguagem na perspectiva cognitiva ("Cognitive Linguistics in
Practice", ed. por G. Radden, R. Dirven et al. e publ. por John Benjamins Publishing Company, Amsterdam).
Entre nós, a Linguística Cognitiva é ainda pouco conhecida. Mas há já
alguns trabalhos: Lima (1989), Almeida (1995), Batoréo (1996) e Silva (1997) são
os primeiros estudos (mais desenvolvidos) no quadro da Linguística Cognitiva.
A seguir, e depois de uma confrontação com outras teorias linguísticas
e da especificação da sua posição dentro da Ciência Cognitiva,
apresentaremos uma breve introdução a alguns dos conceitos fundamentais e aos
principais domínios de investigação da Linguística Cognitiva: categorização
e protótipos, metáforas e metonímias conceptuais, esquemas imagéticos,
modelos cognitivos e culturais e processos cognitivos da gramática[i].
2. Linguística Cognitiva e outras
teorias linguísticas
Pela negação da tese da autonomia
da linguagem (a linguagem como "sistema autónomo" ou como "faculdade
autónoma"), a linguística cognitiva opõe-se aos dois paradigmas linguísticos
anteriores (o estruturalismo e o gerativismo). O estruturalismo linguístico,
nas suas diferentes formas, entende e estuda a linguagem como um sistema que se basta a si mesmo (com a sua própria estrutura, os
seus próprios princípios constitutivos, a sua própria dinâmica) e, por
conseguinte, o mundo que ela representa e o modo como através dela o percebemos
e conceptualizamos considera-os como aspectos "extra-linguísticos".
Por seu lado, a gramática gerativa (de Chomsky e seus discípulos) defende que
a faculdade da linguagem é uma
componente autónoma da mente, específica e, em princípio, independente de
outras faculdades mentais; por conseguinte, o conhecimento da linguagem é
independente de outros tipos de conhecimento[ii].
Consequentemente, a linguística cognitiva rejeita os postulados da linguística
moderna decorrentes do princípio de autonomia da linguagem: entre outros, a
separação entre conhecimento "semântico" (ou "linguístico")
e conhecimento "enciclopédico" (ou "extra-linguístico"),
fundamentada no postulado da existência de um nível estrutural ou sistémico
de significação linguística (relativamente ao qual se considera que se podem
e devem definir e analisar as categorias linguísticas), distinto do nível em
que o conhecimento do mundo está associado às formas linguísticas; o
postulado saussureano da arbitrariedade do signo linguístico; a afirmação da
discrição e homogeneidade das categorias linguísticas; a ideia de que a
linguagem é gerada por regras lógicas e por traços semânticos
"objectivos"; a tese chomskyana da autonomia e da não-motivação semântica
e conceptual da sintaxe.
Relativamente à gramática gerativa — paradigma linguístico das últimas
três décadas — convém precisar que também ela é uma linguística cognitiva,
na medida em que o seu objecto de investigação é a linguagem como
"sistema de conhecimento" (Chomsky 1986: 24), como faculdade mental;
também ela procura estudar as estruturas mentais que constituem o conhecimento
e também ela reconhece que não pode haver conhecimento sem a existência de
uma representação mental, mediadora na relação epistemológica entre sujeito
e objecto. Mas há uma diferença essencial: a gramática gerativa interessa-se
pelo conhecimento da linguagem
(tomando-a, portanto, não como meio, mas como objecto da relação epistemológica)
e procura saber como é que esse conhecimento é adquirido, ao passo que a linguística
cognitiva interessa-se pelo conhecimento através
da linguagem e procura saber como é que a linguagem contribui para o
conhecimento do mundo. Quanto à questão da aquisição da linguagem, embora
ainda não tenha construído uma teoria explícita, a linguística cognitiva
possui elementos que lhe permitem rejeitar a tese gerativista de que a aquisição
da linguagem envolve mecanismos e condicionamentos que são específicos da
linguagem. Em particular, os estudos de linguistas cognitivistas que têm
demonstrado que a conceptualização de domínios abstractos é feita,
geralmente, em termos metafóricos a partir de domínios concretos e familiares
(tais como o domínio espacial) constituem um bom elemento de uma futura teoria
não-autonomista da aquisição da linguagem.
Ainda em oposição à gramática gerativa, a linguística cognitiva
procura demonstrar que os alegados fenómenos "formais" que estiveram
no centro da formação da teoria gerativa envolvem factores semânticos e
funcionais. Quer isto dizer que para a linguística cognitiva a linguagem deve
ser explicada em termos semânticos e funcionais (perspectiva que ela partilha,
aliás, com outras teorias linguísticas pragmática e funcionalmente
orientadas), e, portanto, uma sintaxe formal e autónoma revela-se pouco
adequada.
A linguística cognitiva distingue-se, ainda, de várias formas de
investigação sobre a linguagem no quadro da inteligência artificial e do
vasto domínio de abordagens da linguagem como fenómeno
mental, que também têm sido designadas, umas e outras, por "linguística
cognitiva" (em Schwarz 1992, pode encontrar-se uma síntese deste vasto
campo de investigação).
Pela importância que atribui aos aspectos funcionais
dos fenómenos linguísticos (em particular, a função categorizadora
da linguagem) e por desenvolver uma análise linguística com base na observação
do uso linguístico (cf. Langaker 1987: 46, 1988b, que caracteriza a linguística
cognitiva justamente como "usage-based model"), opondo-se assim ao
abandono chomskyano da "performance" linguística, a linguística
cognitiva é um tipo de linguística pragmaticamente
orientada, tanto teórica como metodologicamente (como faz notar Nuyts 1993).
Ela sintoniza, portanto, com várias escolas e teorias (recentes e antigas) que
se concentram no uso da linguagem e nas funções por esta desempenhadas. Em
particular, é grande a sintonia entre a linguística cognitiva e a linguística
funcional e tipológica, tal como tem sido desenvolvida por Givón (1979, 1984,
1989, 1995) e outros. Mas a linguística cognitiva não é uma reduplicação da
pragmática linguística, já que esta é apenas uma das disciplinas linguísticas,
que se ocupa das línguas como instrumentos de acção e de comportamento.
A perspectiva "cognitiva" da linguagem não é nova, ao contrário
do que alguns cognitivistas afirmam, nomeadamente Lakoff (1987: xii). Swiggers
(1988) assinala uma longa tradição de estudo da linguagem em relação com a
percepção e o conhecimento, com três marcos principais anteriores ao séc. XX:
a hermeneia (expressão ou, melhor,
interpretação de um pensamento) de Aristóteles, a gramática especulativa
medieval (dos modistas) e a gramática filosófica (grammaire
générale ou raisonné) dos séculos
XVII e XVIII. E Geeraerts (1988a) faz notar as afinidades entre a Semântica
Cognitiva e a semântica histórico-filológica do último quartel do século
passado e primeiro do nosso século: ambas partilham de uma concepção
"psicológica" e "enciclopédica" da significação, ambas
concebem os conceitos lexicais como complexos polissémicos flexíveis, ambas
tomam, metodologicamente, uma orientação hermenêutica. Mas a Linguística
Cognitiva é muito mais do que um simples regresso às posições tradicionais;
a sua grande novidade reside no facto de a função cognitiva da linguagem
passar a constituir o objecto de uma investigação sistemática e coerente.
3. Linguística Cognitiva e Ciência
Cognitiva
Já vimos como a linguística cognitiva se distingue de outras teorias
linguísticas que se podem considerar também como cognitivas
(em particular, a gramática gerativa). Vejamos agora qual a posição e a
especificidade da linguística cognitiva no quadro da Ciência Cognitiva (ou Ciência
da Cognição).
A linguística cognitiva é cognitiva
no mesmo sentido que o são outras ciências cognitivas (Psicologia Cognitiva,
Neurociência, Inteligência Artificial, Antropologia, Filosofia, etc.)[iii]:
também ela assume que a nossa interacção com o mundo é mediada por
estruturas mentais. Mas é, por natureza, mais específica, já que se ocupa
unicamente da linguagem como um dos meios de conhecimento.
Porque a linguagem é considerada como uma parte integrante da cognição
e em interacção com outros sistemas cognitivos (percepção, atenção, memória,
raciocínio, etc.), a linguística cognitiva está aberta à
interdisciplinaridade com as outras ciências cognitivas. Ela não só incorpora
dados relevantes dessas ciências na teorização e descrição da linguagem,
como também contribui para o
estudo da cognição humana. Gibbs esclarece que a linguística
cognitiva é especificamente cognitiva
"not solely because of its commitment to incorporating a wide range of data
from other cognitive disciplines, but because it (a) actively seeks
correspondences between conceptual thought, bodily experience, and linguistic
structure, and (b) because it seeks to discover the actual contents of human
cognition" (Gibbs 1996: 49). Acrescenta Gibbs que a linguística
cognitiva ocupa um lugar único dentro da ciência cognitiva e é até mais
cognitiva na sua orientação do que as outras ciências cognitivas, visto que
procura também encontrar, através da análise sistemática da estrutura e do
uso linguísticos, os conteúdos da cognição humana, e não propriamente a sua arquitectura
(o objectivo tradicionalmente mais perseguido, por exemplo, pela psicologia
cognitiva ou pela psicolinguística)[iv].
Com efeito, a investigação cognitiva da linguagem tem descoberto uma série de
importantes e frequentes estruturas conceptuais e pré-conceptuais, entre as
quais estão o que adiante caracterizaremos como modelos cognitivos idealizados,
metáforas e metonímias conceptuais, protótipos e esquemas imagéticos.
Todavia, também é certo que só estudos experimentais psicológicos,
psicolinguísticos e de outras áreas da ciência cognitiva poderão justificar
a realidade psicológica destes conteúdos da mente, expressos na
linguagem.
Mais especificamente, a linguística cognitiva caracteriza-se, ainda no
quadro da ciência cognitiva, pela importância que atribui à semântica na análise
linguística e por tentar demonstrar a natureza enciclopédica
e perspectivante (ou perspectivadora)
da significação linguística (Geeraerts 1995: 113). A primazia da semântica
decorre da própria perspectiva cognitiva: se a função primária da linguagem
é a categorização, então a significação será o fenómeno linguístico
primário. E a natureza enciclopédica
da significação (no sentido de esta se encontrar intimamente associada ao
conhecimento do mundo) é uma consequência da função categorizadora da
linguagem: se a linguagem serve para categorizar o mundo, então a significação
linguística não pode ser dissociada do conhecimento do mundo, e,
consequentemente, não se pode postular a existência de um nível de significação
que pertence exclusivamente à linguagem distinto do nível em que a significação
das formas linguísticas está ligada ao conhecimento do mundo. Por outro lado,
a linguagem, pela sua função categorizadora, não reflecte objectivamente
a realidade, mas impõe uma estrutura no mundo, interpreta-o e constrói-o;
donde a natureza perspectivante-perspectivadora
da significação linguística.
A posição filosófica e epistemológica da Linguística Cognitiva —
que fundamenta as características específicas acabadas de referir —
definem-na Lakoff e Johnson como sendo o não-objectivismo
ou, positivamente, o experiencialismo
("experientialism"; cf. Lakoff & Johnson 1980, Lakoff 1987,
Johnson 1987, Johnson 1992), isto é, a perspectiva segundo a qual a cognição
(e logo também a linguagem) é determinada pela nossa própria experiência
corporal (o "corpo na mente", na expressão de Johnson 1987) e pela
experiência individual e colectiva[v];
mas é também o paradigmatismo (de paradigma,
no seu sentido etimológico de 'exemplo, modelo, padrão', sinónimo de protótipo),
linguística e filosoficamente explorado por Geeraerts (1985; cf. também
Geeraerts 1997: cap. 5), que assinala que a interpretação e a aquisição de
novas experiências é feita à luz de conceitos e categorias já existentes,
que, por isso mesmo, funcionam como modelos interpretativos, como paradigmas
ou protótipos. Argumenta Geeraerts (1993) que estas duas posições são
efectivamente complementares, e é pela sua integração, mais precisamente pela
integração de factores subjectivos
(a experiência individual determina o conhecimento) e objectivos (conceptualizações existentes influenciam a interpretação
de novas experiências), que a Semântica Cognitiva é capaz de transcender a
famosa dicotomia pós-cartesiana empiricismo/racionalismo.
4. Categorização e protótipos
Uma das capacidades cognitivas fundamentais é a categorização,
isto é, o processo mental de identificação, classificação e nomeação de
diferentes entidades como membros de uma mesma categoria. Como é que
categorizamos a imensa variedade de entidades que constituem o mundo e que
estrutura apresentam as categorias conceptuais?
A Linguística Cognitiva diz que a categorização linguística se
processa, geralmente, na base de protótipos
(exemplares típicos, mais representativos, ou, melhor, representações mentais
destas entidades) e que, consequentemente, as categorias linguísticas
apresentam uma estrutura prototípica
(baseada em protótipos). Mais precisamente, a Linguística Cognitiva afirma que
os vários membros ou propriedades de uma categoria possuem, geralmente,
diferentes graus de saliência (uns são prototípicos e outros periféricos),
agrupam-se, fundamentalmente, por similaridades parciais ou "parecenças-de-família"
(conceito tomado de Wittgenstein 1953) e os limites entre si bem como entre
diferentes categorias são, frequentemente, imprecisos. Esta concepção da
categorização, conhecida como teoria do
protótipo, tem a sua origem na investigação psicolinguística de Eleanor
Rosch e seus discípulos sobre a categorização das cores, das aves, dos frutos
e de outras classes de entidades, e foi, depois, desenvolvida em duas direcções:
no âmbito da Psicologia, com vista à elaboração de modelos formais da memória
conceptual humana, de interesse também para a Inteligência Artificial (cf.
Smith & Medin 1981, Medin & Smith 1984, Neisser ed. 1987); e no campo da
Linguística e, em particular, no da Semântica Lexical, sob a designação de
Semântica do Protótipo (cf., entre outros, Coleman & Kay 1981; Geeraerts
1985, 1988b,c,d, 1989, 1997; Wierzbicka 1985; Craig ed. 1986; Lakoff 1987;
Kleiber 1990; Tsohatzidis ed. 1990; Taylor 1995). A teoria do protótipo opõe-se
à concepção "clássica" ou "lógica" da categorização
(uma concepção com uma longa tradição e partilhada também pela linguística
moderna, tanto estruturalista como gerativista), segundo a qual as categorias se
formam e se definem em termos de "condições necessárias e
suficientes" (isto é, através de propriedades individualmente necessárias
e conjuntamente suficientes) e que, por conseguinte, os elementos de uma
categoria têm o mesmo estatuto (não havendo pois graus de representatividade)
e os limites entre si e entre diferentes categorias são nítidos[vi].
Apesar da sua evidência psicológica e linguística, a noção de protótipo
tem-se mostrado complicada e tem suscitado alguma polémica, mesmo no seio da
linguística cognitiva (cf., por exemplo, Lakoff 1987 e Kleiber 1990). Das várias
(re)interpretações, a de Geeraerts (cf., sobretudo, Geeraerts 1989 e Geeraerts,
Grondelaers & Bakema 1994) é, provavelmente, a mais coerente e produtiva. A
ideia fundamental de Geeraerts é a de que a prototipicidade é, por si própria,
uma noção prototípica, no sentido
de que não se reduz a um único fenómeno, a uma única característica ou
efeito, mas compreende vários fenómenos, várias características ou efeitos
distintos e não necessariamente co-extensivos.
As respectivas características ou efeitos de prototipicidade,
identificadas nos vários estudos psicológicos e linguísticos dos protótipos,
mas não sistematizadas, entende-as Geeraerts como manifestações de duas
propriedades fundamentais da categorização: a não-igualdade
entre os elementos de uma categoria, isto é, os seus diferentes graus de saliência
e a estrutura interna da categoria sob a forma de um centro e uma periferia, e a
não-discrição, ou seja, a flexibilidade desses elementos e dessa
categoria e as dificuldades de demarcação daí resultantes. A não-igualdade
manifesta-se, extensionalmente, nos
diferentes graus de representatividade entre os membros de uma categoria e, intensionalmente, no agrupamento de significados (diferentes ou
subconjuntos de um mesmo significado) por (e sob a forma de) "parecenças-de-família"
(do tipo AB, BC, CD, DE) e em consequentes sobreposições ou imbricações
("overlap, overlapping"). E a não-discrição
tem também dois efeitos: extensionalmente,
as flutuações nas margens de uma categoria, sinal de ausência de limites
precisos, e, intensionalmente, a
impossibilidade de definições em termos de "condições necessárias e
suficientes".
Categorias há que combinam estes quatro efeitos de prototipicidade
(sendo assim as mais prototipicamente prototípicas): por exemplo, fruto,
em seu sentido próprio e não-técnico, apresenta membros mais representativos
(laranja, maçã, pera, banana, etc.) do que outros (tomate, azeitona, coco),
uma estrutura de elementos sobrepostos e em "parecenças-de-família",
limites fluidos (por exemplo, a azeitona é um exemplar dúbio, situando-se numa
zona de sobreposição do fruto e do vegetal), e não pode ser definido por
"condições necessárias e suficientes"[vii].
O mesmo se diga do verbo deixar (cf. a
nossa análise em Silva 1997: cap. 2). Já bird
(em português, ave mas também pássaro),
embora apresente exemplares mais representativos do que outros (cf. o pardal ou
o tordo face ao pinguim ou à avestruz) e o agrupamento dos seus elementos se faça
por similaridades parciais e não por propriedades comuns (traços como
'capacidade de voar', 'com penas', 'com asas' não são comuns a todas as espécies,
já que o pinguim e a avestruz não podem voar, o pinguim não tem penas perceptíveis,
etc.), é uma categoria extensionalmente discreta (falantes suficientemente
informados sabem que o morcego não é uma ave e que o pinguim, apesar de tudo,
o é); o que mostra que grau de pertença a uma categoria e grau de
representatividade não se implicam necessariamente. E os nomes de cor
caracterizam-se por efeitos de prototipicidade a nível extensional mas não a nível
intensional, isto é, eles são psicologicamente representados por cores
focais (matizes prototípicos) e os limites entre si são nitidamente
fluidos, mas cada termo de cor pode ser definido em termos discretos e por
propriedades comuns a todos os seus matizes (tal como, para vermelho,
'de cor mais parecida com a do sangue do que com a do céu límpido, a da relva,
a do sol, a do ...'; cf. Wierzbicka 1985: 342). Mais ainda: um conceito matemático
como o de número ímpar, não
obstante ser extensional e intensionalmente discreto, apresenta graus de
representatividade entre os seus elementos (os números ímpares inferiores a 10
são psicologicamente mais salientes); o que mostra que até os conceitos científicos
podem ser objecto de efeitos de prototipicidade. Tudo isto evidencia a existência
de vários efeitos ou tipos de prototipicidade, que se recobrem (e se podem
combinar de diferentes maneiras) mas não se implicam.
Geeraerts (1997) procura demonstrar que, diacronicamente, a mudança semântica
reflecte os efeitos de prototipicidade referidos e toma determinadas formas
implicadas por esses efeitos. Assim, a não-igualdade
entre os elementos de uma categoria lexical faz com que a mudança na extensão
de um único significado tome tipicamente a forma de modulações do seu centro
prototípico e de uma consequente expansão deste (os membros mais salientes de
uma categoria tendem a ser mais estáveis do que os menos salientes); e a mudança
na intensão de uma categoria lexical
envolva tipicamente, não significados individuais e isolados, mas o conjunto de
significados sincronicamente agrupados por "parecenças-de-família" e
sobreposições (é pois este conjunto ou parte dele que se altera, ora na forma
de desenvolvimentos a partir de vários significados coexistentes e/ou
desaparecimentos de valores periféricos, ora na forma de reorganizações de
protótipos, acompanhadas ou não desses desenvolvimentos e/ou
desaparecimentos). A não-discrição,
a nível extensional, de uma categoria
lexical explica que a mudança extensional tome também a forma de modulações
efémeras das margens dessa categoria (uma das manifestações específicas
deste tipo de mudanças é o que Geerarerts designa por "poligénese semântica",
isto é, o facto de um mesmo significado, geralmente periférico, poder surgir
mais do que uma vez na história de uma palavra, ligado a bases genéticas
independentes e com um hiato temporal considerável). E a não-discrição intensional
determina a natureza "enciclopédica" da mudança semântica, no
sentido de esta poder envolver qualquer informação associada a um determinado
item lexical (como manifestação específica desta tendência, um novo
significado pode surgir, não de um significado já existente como um todo, mas
de um sub-conjunto referencial, pragmático, conotativo, etc. de um significado
pré-existente).
Estes efeitos de prototipicidade na mudança semântica (e quase todas
estas características prototípicas da mudança semântica) encontrámo-los na
história do verbo deixar (cf. Silva 1997: cap. 4). Este verbo remonta ao verbo latino laxare
(*daxare) 'afrouxar, relaxar'. Foi provavelmente de 'largar-soltar-libertar'
(aplicação de laxare que se tornou
prototípica aí pelo séc. II d.C.) que se desenvolveram, no latim tardio, os
dois grupos de significados actuais (por relações metonímico-metafóricas, de
enfraquecimento [passivização do sujeito] e por inversão do respectivo
esquema imagético primário). Estes desenvolvimentos tomaram a forma de uma
expansão do centro prototípico 'afrouxar Æ
largar-soltar-libertar', envolveram toda (ou parte da) estrutura semântica pré-existente,
e fizeram-se, alguns, a partir de aspectos contextuais e pragmáticos do protótipo
'largar-soltar-libertar' (num determinado lugar, como circunstante locativo de laxare;
donde, por reanálise sintáctico-semântica,
os sentidos de 'afastar-se, abandonar depois de ter deslocado / sem levar
consigo'). Dos últimos períodos do latim tardio às primeiras fases do português
e do português antigo (leixar) ao português moderno, seguiram-se duas reorganizações de
protótipos. Na primeira, o desaparecimento de 'afrouxar, relaxar' e a
desprototipicização de 'largar-soltar-libertar' deram origem à mudança de
protótipos do domínio espacial para os domínios psico-social e moral, com a
prototipicização de 'abandonar' e de 'permitir', e a um certo afastamento dos
dois grupos (ou categorias) organizados à volta destes dois novos protótipos,
mas também motivaram a emergência de significações esquemáticas, que os
aproximam. Na segunda, mais escondida do que a anterior, o reforço dos valores
"passivos" dá origem à prototipicização de 'não impedir, não
intervir' (em detrimento de 'permitir') e à consequente dissimetria dos dois
valores prototípicos de deixar (de um
lado, o protótipo activo 'abandonar',
e, do outro, o protótipo passivo 'não
impedir, não intervir') e, consequentemente, a um reafastamento das duas
categorias; por outro lado, a consolidação dos conteúdos esquemáticos é
acompanhada de subidas dos valores prototípicos para níveis hierarquicamente
superiores e de consolidações de relações intercategoriais.
Porque é que as categorias são formadas e organizadas em termos de
prototipicidade, ou, por outras palavras, qual a razão de ser dos protótipos e
dos efeitos de prototipicidade? Geeraerts (1988c) propõe uma explicação
psicológico-funcional: as categorias estruturadas na base da prototipicidade são
cognitivamente eficientes, pois, por um lado, têm a vantagem da flexibilidade,
que lhes permite adaptarem-se aos vários contextos em que são usadas e
integrarem novas entidades como membros mais ou menos periféricos, e, por
outro, têm a vantagem da estabilidade,
que proporciona a interpretação de novas experiências (através dos protótipos
existentes), sem que, para o efeito, seja necessária a criação de novas
categorias ou a redefinição de categorias já existentes, e, assim, permite a
continuidade da estrutura geral do sistema categorial. A prototipicidade existe
porque é cognitivamente vantajosa, porque satisfaz estas duas tendências,
aparentemente contraditórias, da cognição humana. Daí que as categorias
linguísticas sejam tipicamente flexíveis e polissémicas e daí a continuidade
e a mutabilidade dos significados das palavras no seu desenvolvimento histórico.
Um outro processo implicado na categorização é a generalização ou
abstracção, numa palavra, a esquematização
(cf. Langacker 1987: 371 ss.). Um esquema é
"an abstract characterization that is fully compatible with all the members
of the category it defines (so membership is not a matter of degree); it is an
integrated structure that embodies the commonality of its members, which are
conceptions of greater specificity and detail that elaborate the schema in
contrasting ways" (Langacker 1987: 371). Esquema
e protótipo e categorização por esquema
e categorização por protótipo não
se excluem, antes se complementam[viii].
Na semântica de um item lexical (ou de uma outra categoria), polissémica ou não,
há sentidos ou referentes esquemáticos e específicos, prototípicos e periféricos.
A sua estrutura tem, por isso, a forma de um "network" (rede). O
modelo de representação da estrutura das categorias que combina esquemas e
protótipos é designado por Langacker (1987: 377-386, 1988a,b) como "network
model".
A categorização linguística é um processo (e um resultado) com duas
dimensões: uma (semasiológica), que
acabamos de considerar, diz respeito à definição e à estrutura interna das
categorias, concretamente às condições pelas quais x é membro da categoria Z; e a outra (onomasiológica) diz respeito à escolha entre categorias
alternativas, concretamente às condições pelas quais Z, e não W, é usado
como nome de x. Relativamente à
dimensão onomasiológica (ou, se quisermos, vertical) da categorização,
estudos etnolinguísticos sobre as classificações populares de plantas e de
animais (cf. o resumo de Berlin 1978) e estudos psicolinguísticos sobre
hierarquias lexicais (cf., por exemplo, Rosch et
al. 1976) verificaram que existe um nível de hierarquização lexical
cognitivamente mais saliente, o chamado nível
básico, que se identifica, em princípio, com o "nível genérico"
de uma taxonomia biológica popular, e ao qual pertencem categorias que, do
ponto de vista da aquisição, são apreendidas em primeiro lugar,
funcionalmente, são as mais rapidamente aplicadas e, linguisticamente, são
expressas por termos morfologicamente curtos e simples (por exemplo, pinheiro relativamente a árvore
e a pinheiro-manso)[ix].
Estes e outros estudos verificaram ainda outros aspectos típicos das
hierarquias lexicais (que também as faz distinguir das taxionomias científicas):
correlações entre protótipos e categorias básicas (aqueles tendem a desenvolver-se no nível básico e a saliência
destas deve-se à sua estrutura baseada em protótipos), relações de inclusão
parcial e sobreposições entre os elementos de uma hierarquia, lacunas e
percursos hierárquicos alternativos, competições lexicais, funções
cognitivas específicas das categorias superordenadas (realçar atributos genéricos
e funcionais e reunir categorias de um nível inferior relativamente a um
determinado atributo) e das categorias subordinadas (especificar, num processo,
não propriamente de subordinação ou de adição de atributos aos do termo
superordenado, mas muitas vezes de criação de novas categorias, expressas ora
por palavras "simples" ora por expressões compósitas).
Directamente em relação à questão da escolha de determinada forma
lexical para nomear determinado referente, em detrimento de outras formas
lexicais igualmente aplicáveis, Geeraerts, Grondelares & Bakema (1994)
concluem, com base na análise de um extenso "corpus" de termos de
vestuário do neerlandês, que isso tem a ver, por um lado, com a
prototipicidade semasiológica desse referente no campo de aplicação dessa
forma e, simultaneamente, com a saliência onomasiológica dessa forma como
categoria para nomear esse referente, e, por outro, com factores contextuais de
natureza pragmática ou sociolinguística. Por outras palavras, a nomeação
é determinada pelas características semasiológicas e onomasiológicas dos
itens envolvidos e por factores contextuais. Por exemplo, a escolha de deixar, em vez de abandonar,
permitir, etc., para nomear os respectivos processos deve-se a um conjunto
variado de factores: saliência semasiológica desses processos no campo de
aplicação de deixar, saliência
onomasiológica de deixar, a sua
gramaticalização, adequação ao registo não-formal, estratégias eufemísticas
e provável primariedade ontogenética (cf. Silva 1997: 177-202).
Ainda quanto à dimensão onomasiológica, Schmid (1993) e Geeraerts,
Grondelaers & Bakema (1994) procuram demonstrar, contrariando as posições
dos teóricos estruturalistas dos campos lexicais, que as estruturas onomasiológicas
caracterizam-se, tal como as estruturas semasiológicas, pela não-discrição
(interna e externa) e pela não-igualdade
dos seus elementos, e são condicionadas por factores contextuais vários.
5. Metáforas e metonímias
conceptuais
Tradicionalmente, metáfora e metonímia têm sido consideradas como
"figuras de estilo", isto é, mecanismos retóricos de ornamentação
da linguagem. E são essas metáforas criativas e poéticas (típicas da
linguagem literária) que mais têm sido estudadas por filósofos, retóricos e
críticos literários. Mas a metáfora e a metonímia não são exclusivas da
linguagem literária ou de outras formas de criação linguística, nem são
essencialmente mecanismos retóricos. Metáfora e metonímia são instrumentos
cognitivos e a linguagem corrente está repleta de expressões metafóricas e
metonímicas (a nível lexical, metáfora e metonímia são os dois meios mais
frequentes de extensão semântica dos itens lexicais)[x].
São estas metáforas e metonímias generalizadas, convencionalizadas e
lexicalizadas (geralmente não reconhecidas como metáforas e metonímias e
impropriamente ditas "mortas"), as mais importantes do ponto de vista
cognitivo. Para a Linguística Cognitiva, estas metáforas e metonímias são
fenómenos verdadeiramente conceptuais[xi]
e constituem importantes modelos
cognitivos. A sua principal diferença é a de que enquanto a metáfora
envolve domínios cognitivos (domínios
da experiência) diferentes, como uma projecção da estrutura de um domínio-origem
numa estrutura correspondente de um domínio-alvo, a metonímia realiza-se
dentro de um mesmo domínio, activando
e realçando uma categoria ou um sub-domínio por referência a outra categoria
ou a outro sub-domínio do mesmo domínio (cf. Lakoff 1987: 288, Croft 1993 e
Dirven 1993).
Num estudo pioneiro sobre este assunto, Lakoff & Johnson (1980)
demonstram que conceptualizamos sistematicamente muitos domínios da experiência
através de metáforas conceptuais, isto é, projectando neles outros domínios.
Por exemplo, conceptualizamos uma discussão (um debate) através da metáfora DISCUSSÃO
É GUERRA
(sem que para isso tenhamos que ter experiência pessoal da guerra, mas porque
temos dela imagens mentais mais ricas). Entre os dois domínios estabelecem-se
analogias estruturais: os participantes de uma discussão correspondem aos
adversários de uma guerra, o conflito de opiniões corresponde às diferentes
posições dos beligerantes, levantar objecções corresponde a atacar e manter
uma opinião a defender, desistir de uma opinião corresponde a render-se, etc.
Tal como uma guerra, uma batalha ou uma luta, também uma discussão, um debate
ou o processo de argumentação pode dividir-se em fases, desde as posições
iniciais dos oponentes até à vitória de um deles, passando por momentos de
ataque, defesa, retirada, contra-ataque. Como realizações linguísticas desta
metáfora conceptual, atacamos ou defendemos
determinada ideia ou argumento, tomamos
posições e utilizamos estratégias,
atacamos cada ponto fraco da argumentação
de alguém, demolimos a argumentação
do outro, acabamos por ganhar ou por perder,
etc[xii].
Outro exemplo: pensamos e falamos da vida humana em termos de uma viagem,
mais precisamente de três viagens (cf. Lakoff & Turner 1989). O nascimento
é o termo da nossa primeira viagem (cf. vir,
chegar ao mundo, o bébé vem a
caminho, já chegou); daí até à morte realizamos a nossa segunda viagem
no mundo (somos viajantes, os nossos propósitos são destinos e os meios para
os realizarmos são caminhos, as dificuldades da vida são obstáculos, o
progresso realizado é a distância percorrida e as escolhas são
encruzilhadas); a morte é o começo da nossa última viagem (ele deixou-nos,
partiu, foi para a sua última morada, ainda
/ já não está connosco). Outros exemplos: conceptualizamos as expressões
linguísticas como contentores onde pomos ideias e todo o tipo de informações,
as ideias e os significados como objectos ou coisas e a comunicação linguística
como envio e recepção de pacotes de informação (Reddy 1993 designa esta
forma de conceptualizar a linguagem e a comunicação por metáfora do conduto ou do
canal ["conduit metaphor"]); conceptualizamos o tempo em termos de
espaço (como um objecto que se move) e como dinheiro, o sentimento e a emoção
como força, o amor como fogo e como guerra, a ira como fogo ou como um animal
perigoso, o corpo como um recipiente para sentimentos e emoções, a intimidade
como proximidade e ligação físicas, a vida como um jogo (de azar), o mundo
como um teatro, as teorias como construções (edifícios), a mente como uma máquina,
o conhecimento e a compreensão como visão, os problemas como "puzzles",
o bom, a felicidade e a virtude como em cima e o mau, a tristeza e o vício como
em baixo, etc., etc. (cf.
Lakoff & Johnson 1980, Lakoff & Turner 1989, Lakoff 1987, 1993, Kövecses
1986, 1988, 1990, Sweetser 1990, Gibbs 1994).
Estes
e outros exemplos mostram que a metáfora não é uma mera extensão (ou
transferência) semântica de uma categoria isolada para outra categoria de um
domínio diferente, mas envolve uma analogia sistemática e coerente entre a
estrutura interna de dois domínios da experiência e, consequentemente, todo o
conhecimento relevante associado aos conceitos e domínios em causa. Os mesmo
exemplos mostram também que a metáfora tende a ser unidireccional: através
dela, geralmente conceptualizamos domínios abstractos em termos de domínios
concretos e familiares. O que quer dizer que a conceptualização de categorias
abstractas se fundamenta, em grande parte, na nossa experiência concreta
cotidiana.
As metáforas conceptuais desempenham pois um papel crucial na
conceptualização de muitos domínios. Elas constituem uma maneira
de pensar, também em domínios como, por exemplo, a ética (cf. Johnson
1993), a política (cf. Lakoff 1992, 1996), ou as ciências (cf. vários estudos
em Ortony 1993).
Que tipos de domínios-origem servem a metáfora, ou quais as características
do "input" da metaforização? A experiência básica à luz da qual
conceptualizamos metaforicamente domínios abstractos é, em certos casos,
representada por categorias do nível básico
ou pelas suas categorias superordenadas, e são os atributos salientes dessas
categorias que são usados para estruturar a categoria abstracta (cf. casa,
igreja, castelo e outras espécies de edifícios na conceptualização de
uma teoria, ou guerra e os objectos e
acções básicos que constituem esta categoria de evento na conceptualização
de uma discussão). Noutros casos, são usados como domínios-origem objectos
materiais, seres vivos e seres humanos (resultando daí metáforas "concretistas",
animistas e antropomórficas). E ainda noutros, como fazem notar Lakoff (1987) e
Johnson (1987), são utilizadas determinadas estruturas imagéticas bastante
simples, geralmente de natureza espacial, ligadas à nossa experiência sensório-motora
— os chamados esquemas imagéticos (cf. secção seguinte). Por exemplo, o esquema
imagético 'percurso' na metáfora conceptual A
VIDA É UMA VIAGEM, os esquemas imagéticos 'em cima' e 'em baixo' na
conceptualização metafórica do bom e do mau (altos/baixos valores, espírito elevado,
entrar em declínio, cair
em desgraça, subir ao céu, descer ao
inferno), ou do poder e do domínio e da falta de poder e do ser dominado (superior/inferior,
ter poder sobre alguém, estar sob o controlo de alguém, classe baixa/alta), os esquemas imagéticos de 'proximidade-distância'
e/ou 'ligação-separação' metaforicamente elaborados, por exemplo, no domínio
das relações interpessoais afectivas ou outras (relação
estreita, pessoas chegadas, deixar/abandonar alguém), ou ainda o esquema
imagético tridimensional do contentor
aplicado metaforicamente a expressões metalinguísticas (conteúdo da palavra, da frase;
palavras vazias).
Metonímias conceptuais são os vários tipos de metonímia que se baseiam em
relações de contiguidade (não apenas no sentido espacial, mas também
temporal, causal ou conceptual), tradicionalmente designadas por
"continente pelo conteúdo", "causa pelo efeito",
"instrumento pelo agente que o utiliza ou pela actividade com ele
praticada", "matéria pelo objecto fabricado dessa matéria",
"parte pelo todo", etc. (e o inverso de algumas destas relações).
Estes e outros tipos resultam, por vezes, de relações de contiguidade entre
esquemas imagéticos (por exemplo, "parte-todo", "percurso-lugar",
"origem-percurso-destino", "em massa - múltiplo").
Relativamente aos factores gerais que favorecem o processo metonímico, Taylor
(1995: 90, 125-6) introduz a noção de perspectivação
("perspectivization"), isto é, a possibilidade de perspectivar
determinada componente de uma estrutura conceptual unitária em detrimento de
outra(s) ou do todo. Por exemplo, em fechar
a porta / a tampa perspectiva-se apenas uma componente da acção de fechar,
que é a colocação numa determinada posição do dispositivo com que se impede
o acesso a determinado contentor, e, por isso, o objecto directo do verbo é o
nome desse dispositivo. Mas em fechar a
caixa perspectiva-se a accão de fechar na sua totalidade (não só a
utilização de um dispositivo, mas também o impedimento de aceder a um
contentor), e, por conseguinte, o objecto directo passa a ser o nome do
contentor.
Metáfora e metonímia interactuam frequentemente. Goossens (1990)
evidencia esta interacção, a que dá o nome de "metaphtonymy", nas
expressões do inglês que denotam "acção linguística" (tendo como
domínios-origem a acção violenta, o som e partes do corpo), e verifica que há
casos de integração da metonímia e
da metáfora, ora como "metonímia dentro da metáfora" ora, mais
raramente, "metáfora dentro da metonímia", e casos de cumulação,
quer como "metáfora a partir de uma metonímia" quer, mais raramente,
como "metonímia a partir de uma metáfora"[xiii].
Este estudo sugere que mais frequentemente a metonímia funciona como motivação
conceptual da extensão metafórica do que o inverso (cf. também Taylor 1995:
124,139)[xiv].
Um dos domínios em que a interacção metáfora-metonímia é
particularmente frequente é o das categorias de emoção. Nos seus importantes
estudos sobre a linguagem das emoções, Kövecses (1986, 1988, 1990) e Lakoff
(1987: 380-415) concluem que na conceptualização dos sentimentos e das emoções
funcionam um princípio metonímico geral de tipo causa-efeito, pelo qual a ira,
a tristeza, o medo, a alegria, o amor e outras emoções são referidas por
sintomas fisiológicos correspondentes (tais como aumento/abaixamento da
temperatura do corpo, rosto corado/pálido, gritos e lágrimas, abraços, suor,
alteração das pulsações e do ritmo cardíaco), e várias metáforas
conceptuais desencadeadas por estas metonímias fisiológicas (por exemplo, a
ira como calor, como calor de um fluido num contentor, como fogo, como um animal
perigoso; o medo como um opressor; a alegria como luz, como em cima; a tristeza
como escuridão, como em baixo; o amor como nutriente, como alimento saboroso,
como fogo). No inglês, a alegria e o amor são conceptualizadas mais por metáforas
e o medo mais por metonímias; no caso da ira, há um equilíbrio entre os dois
processos cognitivos[xv].
6. Esquemas imagéticos e suas
transformações
Uma das ideias importantes (e originais) em Linguística Cognitiva é a
de que grande parte do nosso conhecimento não é estático, mas fundamenta-se
em e é estruturado por padrões dinâmicos, não-proposicionais e imagéticos
dos nossos movimentos no espaço, da nossa manipulação dos objectos e de
interacções perceptivas — os chamados esquemas
imagéticos ("image schemas"; cf. Johnson 1987 e Lakoff 1987,
1990). Entre os esquemas imagéticos mais frequentes, linguisticamente
realizados de muitas variadas maneiras, estão os seguintes: contentor
("container") ou recipiente,
origem-percurso-destino, percurso (ou caminho),
elo ("link"), força, equilíbrio
(ou balança), bloqueio, remoção, contraforça, compulsão, parte-todo, centro-periferia, em cima - em baixo, à frente - atrás,
dentro-fora, perto-longe, contacto, ordem linear. Por exemplo, a ideia que
temos do 'equilíbrio' é algo que apreendemos, não pela compreensão de um
conjunto de regras, mas com o nosso próprio corpo, através de experiências
corporais várias de equilíbrio e de desequilíbrio e da manutenção dos
nossos sistemas e funções corporais em estados de equilíbrio. E este esquema
imagético do equilíbrio é metaforicamente elaborado para a compreensão de vários
domínios abstractos (por exemplo, estados psicológicos, relações legais e
jurídicas, sistemas formais).
Os esquemas imagéticos não existem como entidades individuais e
isoladas, mas ligam-se entre si através de transformações
de esquemas imagéticos ("image-schema transformations"). Como
importantes transformações de esquemas
imagéticos, Lakoff (1987: 442-3) aponta as seguintes: da
focagem do percurso para a focagem do ponto-final (seguir mentalmente o
percurso de um objecto em movimento e depois focalizar o ponto onde ele pára ou
virá a parar), do múltiplo para a massa
(a partir de um grupo de vários objectos, imaginá-lo como um conjunto de
entidades e, finalmente, como uma massa homogénea; analogamente, uma sequência
de pontos é vista à distância como uma linha contínua), seguir uma trajectória ou, por outras palavras, do
movimento zero-dimensional para o movimento uni-dimensional (percepcionando
um objecto em movimento contínuo, pode mentalmente traçar-se o seu percurso ou
a sua trajectória) e sobreposição
(imaginando uma esfera grande e um cubo pequeno, aumentar o tamanho do cubo até
que a esfera possa caber dentro dele e, depois, reduzir o tamanho do cubo e
colocá-lo dentro da esfera). Cada transformação
de esquema imagético reflecte pois aspectos importantes da experiência
humana (sobretudo corporal) visual, auditiva ou cinestésica.
Vários estudos de linguística cognitiva têm comprovado o papel
fundamental dos esquemas imagéticos e
das suas transformações no
conhecimento, no pensamento e na imaginação, na estruturação dos domínios
da experiência, na metáfora (como vimos, esquemas imagéticos são
metaforicamente elaborados para a conceptualização de várias categorias
abstractas; cf. Lakoff & Johnson 1980, Lakoff 1987, 1990, Johnson 1987,
1993), na significação lexical, na extensão semântica das categorias
lexicais e na coerência de complexos polissémicos (cf. Brugman 1989, Lakoff
1987: 416-461 e Dewell 1994, sobre a preposição over),
na criação e na motivação semântica de formas e construções gramaticais
(cf. Langaker 1987, 1991). Juntamente com os protótipos, a metáfora e a metonímia,
salienta Johnson (1992) que eles conferem à significação uma natureza incorporada
("embodied") e imagética
("imaginative"). Recentemente, Gibbs & Colston (1995) encontraram
em vários trabalhos experimentais de diferentes áreas da Psicologia
(Psicologia Cognitiva, Psicologia do Desenvolvimento e Psicolinguística) evidência
empírica sobre a realidade psicológica dos esquemas imagéticos e das suas
transformações.
Em Silva (1997), mostrámos que a coerência semântica do verbo deixar
(cujo complexo semasiológico compreende duas categorias semânticas numa certa
"tensão homonímica", uma com objecto construído como estático e
expresso num complemento nominal [deixar x]
e outra com objecto dinâmico expresso num complemento verbal [deixar
fazer y]) provém de seis esquemas imagéticos constituídos por movimentos
de afastamento "activo" (cessando o contacto inicial) ou
"passivo" (mantendo a separação inicial), ora do participante
sujeito (cf. 'ir embora' e 'afastar-se depois de deslocar' vs.
'não se aproximar') ora do participante objecto (cf. 'permitir' e 'largar-soltar-libertar'
vs. 'não impedir')[xvi].
Estes esquemas imagéticos estão ligados entre si por transformações de
inversão do participante dinâmico que realiza o movimento (sujeito vs. objecto), de inversão da atitude do participante sujeito
("activo", afastando-se ou criando as condições para o afastamento
do objecto vs. "passivo",
mantendo-se afastado) e de adição/supressão de um momento anterior de
intervenção prévia (de deslocação ou de bloqueio do objecto) por parte do
sujeito. E são metaforicamente elaborados nos domínios das relações
interpessoais e das funções sociais (como suspensão, abandono ou ruptura), da
posse (como transferência de posse prototípica ou abstracta, transferência
por morte, não-apropriação), da causação (como causação negativa), da permissão, da moral, da conduta (como desleixo, traço
tipicamente português), da morte, do tempo (como posteridade, adiamento), da
negação (como opção negativa: optar por não continuar a agir ou optar por não
agir), etc. Diacronicamente, é do esquema imagético instanciado em 'largar-soltar-libertar'
que provêm, directa ou indirectamente, por transformações de inversão do
participante dinâmico e da atitude do sujeito e de supressão/manutenção do
momento anterior, a categoria de significados com objecto estático, e, por
transformações de supressão do momento anterior e de inversão da atitude do
sujeito, a categoria de significados com objecto dinâmico.
7. Modelos cognitivos e culturais
A significação e a estrutura de uma categoria linguística dependem de
determinadas estruturas de conhecimento sobre o domínio ou domínios da experiência
a que essa categoria está associada. Trata-se de um conhecimento
individualmente idealizado, isto é, de um modelo
cognitivo, e interindividualmente partilhado pelos membros de um grupo
social, ou modelo cultural. É no contexto dos respectivos modelos cognitivos e
culturais que, para a Linguística Cognitiva, as categorias linguísticas podem
ser devidamente caracterizadas.
Os modelos cognitivos têm limites indeterminados e tendem a associar-se
em redes ("networks"). Por exemplo, o modelo cognitivo do domínio
"praia" (estar na praia) compreende vários contextos e situações e
está associado a outros modelos cognitivos tais como os do sol, das férias, da
areia, da pesca, etc. Metodologicamente, a descrição do modelo ou modelos
cognitivos implicados por uma categoria não pode ser exaustiva, mas selectiva.
Os modelos cognitivos são omnipresentes: em qualquer acto de categorização
estão envolvidos, mais ou menos conscientemente, um ou mais modelos cognitivos;
mesmo nos casos de objectos ou situações desconhecidas ou não-familiares, é
possível começar a ter deles uma ideia através de modelos cognitivos
parecidos. Uma categoria pode envolver um complexo de diferentes modelos
cognitivos: por exemplo, mãe remete,
não só para os domínios de nascimento e genético, mas também para os domínios
nutritivo (e educacional), marital e genealógico (cf. Lakoff 1987: 74-76), razão
pela qual a mulher que alimenta e educa uma criança, mesmo que a não tenha
dado à luz, pode ser considerada como sua mãe.
Determinados modelos cognitivos são exclusivamente culturais. Por
exemplo, sexta-feira é o dia a seguir
a quinta-feira e o sexto e penúltimo dia da semana no calendário ocidental e
cristão; é o último dia da "semana de trabalho" na cultura
ocidental; é, para os cristãos, o dia em que Cristo foi crucificado; é o dia
de azar para os supersticiosos. E os modelos cognitivos sobre determinado
objecto ou situação podem divergir de cultura para cultura. Por exemplo, o
protótipo de secretária (mesa) para os chineses e japoneses é bem diferente
do correspondente protótipo europeu: enquanto para estes a secretária prototípica
tem uma determinada altura, porque nela se escreve sentado numa cadeira, e tem
gavetas, porque serve também para guardar documentos pessoais e outras coisas;
para aqueles, a secretária prototípica caracteriza-se pela ausência destas
duas propriedades, porque aí o acto de escrever é tradicionalmente realizado
sentado no chão com as pernas cruzadas. Outro exemplo: as propriedades prototípicas
da primeira refeição do dia são diferentes em Portugal e na Inglaterra,
porque diferentes são os respectivos modelos cuturais sobre a função e a
relevância das três refeições do dia (no modelo português, o pequeno-almoço
é de menor importância do que as refeições do meio-dia e da noite, ao passo
que, no modelo inglês, as refeições mais importantes são a primeira e a última).
Um tipo particularmente interessante de modelos culturais é o que se
baseia em observações informais, crenças tradicionais ou mesmo superstições
sobre fenómenos do mundo. São verdadeiras "teorias populares" ou
"modelos populares" sobre, por exemplo, a medicina, o casamento, os
astros, a mente humana, a linguagem humana, os sentimentos e as emoções, o
comportamento dos animais, etc. (cf. Holland & Quinn eds. 1987). Particularmente
em domínios técnicos e científicos, as teorias populares dos leigos são
inexactas ou mesmo erradas à luz do conhecimento científico dos especialistas.
Por exemplo, a maior parte das pessoas têm concepções sobre o movimento
semelhantes às da teoria física pré-newtonina: nomeadamente, consideram que
os objectos que são postos em movimento por um agente externo recebem uma força
interna ou "ímpeto" que os conserva em movimento até esse ímpeto
gradualmente se dissipar. Esta teoria popular do movimento fundamenta-se na
observação cotidiana do movimento de certos objectos, tais como bolas de
futebol ou de ténis. Acontece, porém, que em muitos casos, não obstante a
teoria popular ser cientificamente errada, ela permite chegar a resultados
funcionais correctos: por exemplo, apesar de várias pessoas entenderem o
mecanismo de um termostato em termos de uma válvula (quanto maior for a
abertura maior será o fluxo, tal como numa boca de gás), e não como um
mecanismo autoregulador que mantém uma temperatura uniforme, são capazes de
fazer projecções correctas no controlo da temperatura (da sua casa, por
exemplo). O que quer dizer que, para a sua vida cotidiana, as pessoas não
precisam de modelos cientificamente correctos, mas de modelos funcionalmente
efectivos.
A metáfora constitui um tópico importante para o estudo de modelos
populares implícitos na linguagem[xvii].
Por exemplo, e como se referiu acima, a "metáfora do conduto" da
comunicação e da significação linguísticas revela uma concepção
objectivista e reificada da significação (os "significados" como coisas,
que se podem delimitar, individualizar, registar, encontrar, contar, empacotar,
avaliar ou mesmo digerir), partilhada pelas pessoas comuns e mesmo até por
certas teorias semânticas. E as expressões metafóricas das emoções revelam
uma teoria popular segundo a qual, entre outros efeitos fisiológicos, o calor
do corpo é metonimicamente tomado em lugar da emoção e metaforicamente
compreendido como um fluido quente que corre num contentor: o aumento de calor
faz o fluido ferver e pode causar uma explosão, o que explica emoções tais
como a ira, a alegria ou o amor, e a diminuição de calor está na base do
medo.
Diferentes termos e conceitos correlatos são usados em Linguística
Cognitiva para realçar determinados aspectos destas estruturas de conhecimento
(genericamente designadas por modelos cognitivos e culturais), que estão na
base das expressões linguísticas.
Langacker (1987) propõe a noção de domínio
(domínio cognitivo) — qualquer área de conhecimento que serve de base à
significação de uma "unidade cognitiva" linguisticamente expressa
— e distingue entre domínios básicos,
que representam experiências humanas cognitivamente irredutíveis, como o espaço,
a temperatura, o tempo, o gosto, a força, a dor, a cor, e domínios complexos
ou "matriz de domínios" (categorias como linha, depois, vermelho e frio
são directamente caracterizáveis em relação aos domínios básicos do espaço
bi-dimensional, do tempo, da cor e da temperatura, respectivamente, mas faca
só pode ser definida tendo em conta a sua forma, a sua função genérica, a
sua inclusão no faqueiro e na mesa, o seu tamanho, a matéria de que é feita,
os jogos com facas, etc.).
Fillmore (1975, 1977, 1978) introduz a noção de "frame",
entendendo-a, inicialmente, mais num sentido linguístico (um "frame"
é o conjunto dos meios lexicais e sintácticos disponíveis para referir uma cena
ou cenário e cada opção lexical e sintáctica reflecte uma certa perspectiva
sobre uma situação dessa cena; cf. o exemplo clássico da "cena" da
transacção comercial e do seu respectivo "frame" em inglês) e,
posteriomente (Fillmore 1985, Fillmore & Atkins 1992), mais no sentido de
modelo cognitivo. Não só em Linguística Cognitiva como em Inteligência
Artificial, "frames" são estruturas de conhecimento relacionadas com
determinadas situações de interacção, que se reflectem linguisticamente nas
relações lexicais entre verbos e na sintaxe das orações; noção
complementar é a de "script", introduzida pelos teóricos da Inteligência
Artificial (cf. Schank & Abelson 1977), que designa sequências extensas de
eventos ligados por cadeias causais. Próxima da noção de "frame",
mas mais como uma estrutura cognitiva básica e universal, é a de evento,
tal como tem sido teorizada por Talmy (1978, 1985) — cf. a sua análise da
estrutura conceptual do evento de movimento, com seis componentes cognitivas: figura,
base, percurso, movimento, modo e causa.
Recentemente, Talmy (1991, 1996) reavivou o termo "frame" postulando o
que designa por "event-frames" (de movimento, de causação, cíclico,
de interacção entre participantes, de inter-relações).
Lakoff (1987) fala de modelos cognitivos idealizados, salientando assim a natureza psicológica
ou idealizada dos modelos cognitivos, e, atendendo aos seus princípios de
estruturação, distingue entre modelos proposicionais (idênticos aos "frames" de Fillmore), de esquemas
imagéticos, metafóricos e metonímicos. Johnson (1987) teoriza a noção de esquemas imagéticos, demonstrando a natureza imagética e pré-conceptual
de alguns modelos cognitivos. O estudo de Johnson-Laird (1983) é um tratamento
psicolinguístico dos modelos mentais.
A teoria de Fauconnier (1985) sobre espaços mentais visa descrever o modo pelo qual os modelos
cognitivos são construídos no acto do discurso como constructos temporários
(cf., também, a sua obra mais recente: Fauconnier 1997). Linguistas antropólogos
e sociolinguistas focalizam a natureza interindividual, social e cultural dos
modelos cognitivos, através do que designam por modelos
culturais (cf. Holland & Quinn eds. 1987 e D'Andrade 1989).
8. A gramática como sistema de
organização conceptual
Para a Linguística Cognitiva, as categorias (classes e construções)
gramaticais são também, tal como as lexicais, entidades simbólicas,
isto é, significativas (simbolizam um conteúdo conceptual). Elas devem pois
ser consideradas, ao contrário do que advogam outras teorias linguísticas, não
somente em termos das suas propriedades sintácticas, mas tendo em conta a sua
base semântica. Tal como o léxico, a gramática é motivada por aspectos e funções
conceptuais e semânticas e está intimamente relacionada com a categorização,
processos imagéticos, modelos cognitivos e culturais. Esta perspectiva simbólica
da gramática tem a sua expressão mais elaborada na Gramática Cognitiva de
Langacker (1987, 1990, 1991)[xviii]
e na Gramática de Construção de Fillmore (1988; Fillmore, Kay & O'Connor
1988; Goldberg 1995)[xix].
Tal como as categorias lexicais, também as categorias gramaticais são
estruturadas com base em protótipos (cf., por exemplo, Taylor 1985: capp. 10 e
11). No seu notável estudo sobre as duas classes gramaticais mais importantes
(republicado em Langacker 1990: cap. 3), diz Langacker que o substantivo denota,
esquematicamente, uma "coisa" (ou 'região em algum domínio') e,
prototipicamente, um objecto físico discreto, ao passo que um verbo denota,
esquematicamente, uma "relação temporal complexa" (ou 'processo') e,
prototipicamente, uma interacção energética (transferência de energia que conduz a uma
mudança) entre objectos físicos discretos. Substantivos que não denotam
objectos físicos discretos e verbos que não denotam interacções energéticas
desviam-se, de diferentes maneiras, do respectivo protótipo. Substantivo (ao
qual está associado o pronome) e verbo (ao qual se associam outras classes
"relacionais": adjectivo, advérbio, preposição) representam uma
oposição conceptual máxima inscrita num modelo cognitivo do mundo, a que
Langacker dá o nome de "modelo da bola de bilhar", segundo o qual o
mundo é povoado por objectos físicos discretos que se deslocam e interagem
energeticamente quando se põem em contacto uns com os outros. Por seu lado, as
construções sintácticas são também categorias prototípicas. Por exemplo, a
construção transitiva prototípica descreve um evento real, envolvendo dois
participantes específicos e distintos, em que um deles, o agente humano, causa
directa, física e intencionalmente, uma mudança perceptível no outro, o
paciente não-animado (cf. Lakoff 1977, Hopper & Thompson 1980, Langacker
1991)[xx].
Por outro lado, não só as classes como as construções gramaticais são
susceptíveis de caracterizações esquemáticas. Quanto às segundas, a gramática
de uma língua compreende as chamadas "regras gramaticais", as quais,
em Linguística Cognitiva, tomam a forma de esquemas
de construção. Um esquema de construção
é uma estrutura complexa convencionalizada que representa o que há de comum ao
conjunto de construções específicas que o instanciam.
Também as categorias gramaticais se fundamentam, por vezes, na experiência
cotidiana, em modelos cognitivos e culturais, e são objecto de metáforas e
metonímias conceptuais e de esquemas imagéticos. No seu estudo sobre dinâmica
de forças ("force dynamics"), Talmy (1988a) demonstra o impacto
de padrões de dinâmica de forças na estrutura da linguagem. Conceptualizamos
e exprimimos linguisticamente interacções físicas através de esquemas pré-conceptuais
de dinâmica de forças (que se fundamentam na nossa experiência cinestésica)
e, metaforicamente, interacções psicológicas e sociais em termos desses
mesmos esquemas. Tal como Talmy a caracteriza, a dinâmica de forças é uma categoria complexa, que envolve vários
factores. Os mais básicos são: dois participantes, um que exerce força (o agonista,
que, numa oração transitiva, corresponde normalmente ao objecto directo) e
outro que exerce, prototipicamente, uma contra-força (o antagonista,
que corresponde ao sujeito); as tendências de força intrínsecas do agonista,
quer para o movimento ou acção quer para o repouso/permanência ou inacção;
"balance of strengths" (a entidade mais forte e a entidade mais
fraca); e o resultado do conflito (ora o movimento-acção ora a permanência-inacção
do agonista). Para além de outras aplicações, o conceito de dinâmica de força
conduziu Talmy a uma redefinição e a uma importante exploração da noção de
causatividade (ou causação) e, portanto, das construções causativas. A causação
(do ingl. "causation") compreende, não apenas 'causing' (causar), mas
também 'letting' (deixar) — 'causing' e 'letting' configuram duas dinâmicas
de forças com um antagonista como
sendo a entidade mais forte. 'Causing' envolve o começo ou a continuação da
influência positiva do antagonista,
de forma que o estado ou a actividade do agonista
daí resultante é o oposto do da sua tendência intrínseca. 'Letting' envolve
não-influência do antagonista, ora
na forma de cessação da influência ora na de não-ocorrência, de maneira que
a acção ou estado do agonista é o
mesmo que o da sua tendência intrínseca. Mas a causação compreende ainda
outras dinâmicas de forças com um antagonista
como força mais fraca (algumas das quais não envolvem oposição). Por
exemplo: 'apesar de / embora' (contraposto a 'por causa de'), 'ajudar',
'auxiliar', 'possibilitar', 'tentar', 'resistir', 'suportar'[xxi].
Com o mesmo conceito de dinâmica de forças, Sweetser (1990: 49-75) propõe uma
explicação dos sentidos deôntico e epistémico dos verbos modais (cf. também
Johnson 1987: 42-64). As noções de modalidade são extensões metafóricas de
esquemas de dinâmica de forças do mundo físico. Por exemplo, o sentido de
obrigatoriedade de dever denota uma
força compulsiva que leva o sujeito a um acto; e no sentido de necessidade, dever
denota uma força compulsiva de evidência que conduz o sujeito a uma conclusão.
Segundo Langacker (1987, 1991), a estrutura da oração é
conceptualizada em termos de dois modelos cognitivos. Um é o já referido
"modelo da bola de bilhar" (que compreende, aliás, a noção de
"dinâmica de forças"), segundo o qual uma oração é uma cadeia
de acção, em que um objecto entra em contacto com outro, daí resultando
uma transferência de energia; este
segundo objecto entra em contacto com um terceiro, resultando novamente uma
transferência de energia, e assim sucessivamente. O objecto inicial desta
cadeia, fonte de energia, é a sua cabeça e o objecto final, que apenas consome a energia transmitida,
a sua cauda. As noções de sujeito e
objecto directo encontram aqui uma caracterização esquemática[xxii].
O sujeito é a cabeça da porção perfilada da cadeia de acção, é o
iniciador do fluxo de energia. O objecto directo é a cauda da porção
perfilada da cadeia de acção, o ponto final do fluxo de energia. O sujeito
prototípico é a fonte de energia
volitiva que inicia a cadeia da actividade, o mesmo é dizer, é um agente
(humano, portanto), responsável pela ocorrência da acção; o objecto directo
prototípico é um paciente, um objecto inanimado que absorve a energia
transmitida e que por isso mesmo sofre uma mudança interna de estado. Estes são
os dois participantes "directos" ou mais centrais no processo
"perfilado" por uma oração, e são geralmente não-marcados
morfologicamente; o sujeito é o participante mais proeminente e o objecto
directo é o segundo participante mais proeminente (consequentemente, uma oração
pode ter sujeito sem ter objecto, mas não inversamente). Qualquer outro
participante é "oblíquo" ou menos central, e é geralmente marcado
(por preposições nas línguas sem sistema morfológico de caso). Por outro
lado, uma cadeia de acção pode ser
linguisticamente realizada de diferentes maneiras. Assim, se a oração
transitiva apresenta a energia necessária para a cadeia de acção vinda de uma
origem externa e constrói o iniciador do fluxo de energia como sujeito e o
ponto final desse fluxo como objecto, na oração intransitiva fonte e alvo de
energia convergem num único participante — o sujeito. E uma terceira
alternativa consiste em conceber o evento autonomamente, isto é, sem qualquer
referência à energia que o produziu: é o que Langacker designa por "absolute
construal", como, por exemplo, nos chamados verbos "inacusativos"
ou "ergativos" (isto é, verbos cujo sujeito é um objecto directo
subjacente: "O João chegou/caiu").
Um outro modelo cognitivo determinante na concepção dos eventos, e
portanto na estrutura da oração, é o "modelo do palco".
Conceptualizamos um evento como um cenário
("setting") estável e inclusivo, dentro do qual interagem, como
actores, assimetricamente, determinados participantes
numa cadeia de acção. Na codificação não-marcada do evento, a distinção cenário/participante
reflecte-se na oposição entre determinadas expressões adverbiais,
nomeadamente de lugar e de tempo, por um lado, e os complementos nominais do
verbo, por outro; estes conceptualmente autónomos e centrais e aqueles
dependentes e periféricos. Oposição que corresponde à que é estabelecida no
quadro da Gramática de Valências entre "circunstantes" e "actantes",
respectivamente. Mas estes diferentes estatutos não são inerentes e imutáveis,
mas essencialmente uma questão de "construal" (cf. a seguir); quer
isto dizer, nem sempre um nominal é construído como participante (ou actante)
e nem sempre uma expressão adverbial é construída como cenário ou fragmento do cenário (ou circunstante), podendo muito bem ser construída como participante
ou actante.
A gramática de uma língua tem por função principal organizar uma
determinada "cena" ou situação (cf., particularmente, Talmy 1988b).
Cada construção sintáctica particular reflecte uma organização cognitiva
específica por parte do conceptualizador da cena, e variações formais
reflectem variações conceptuais, bem como construções competitivas
representam organizações alternativas de uma cena. Não há lugar, portanto,
para "estruturas profundas" nem para "regras de transformação",
postuladas pelos gerativistas para a derivação das "estruturas de superfície",
já que a forma de superfície de cada construção representa uma determinada
organização cognitiva. Para a Linguística Cognitiva, o significado de uma
expressão linguística (lexical ou gramatical) não se esgota no conteúdo
conceptual que ela evoca; igualmente significativa é a maneira como esse conteúdo
é construído/interpretado, por
outras palavras, o "construal" ou perspectivação conceptual que essa
expressão impõe na cena que descreve. Assim, duas expressões podem
representar essencialmente o mesmo conteúdo conceptual e, não obstante,
diferirem semanticamente em virtude das diferentes perspectivações conceptuais
("construals") desse conteúdo.
Os processos cognitivos envolvidos na organização de uma cena são idênticos
a mecanismos de percepção (em particular, visual). Tal como um observador,
também o "conceptualizador" divide uma cena em partes que constituem
o plano de fundo e partes que constituem o primeiro plano, distingue um objecto
como figura proeminente que se destaca da base, assume uma posição estratégica
a partir da qual consegue uma determinada perspectiva da cena, e realiza operações
cognitivas tais como focalizar determinada região, salientar ou secundarizar
certos elementos, examinar as unidades relevantes de uma cena. Estes processos
cognitivos são imagéticos por
natureza, constituem imagens mentais; eles têm sido amplamente estudados
sobretudo por Langacker (1987, 1988a, 1990, 1991), que os designa como "imagery".
Langacker (1988a, 1990: 3-15) identifica várias dimensões da "imagery"
(várias facetas do "construal") e agrupa-as nas seguintes rubricas: especificidade,
"background", âmbito, perspectiva e proeminência.
Vejamos, muito sumariamente, cada uma delas.
Uma expressão pode ser conceptualizada em diferentes níveis de especificidade
e detalhe. Pode, também, ser concebida relativamente ao "background"
(plano de fundo) de outra. Por exemplo, e quanto a este segundo aspecto, as
expressões copo meio-vazio e copo
meio-cheio têm as mesmas "condições-de-verdade", mas diferem
semanticamente, pois são construídas por diferentes suposições e
expectativas. O âmbito de uma expressão compreende a totalidade dos domínios
cognitivos que ela simboliza, e dos quais depende a sua caracterização. A perspectiva
inclui os factores posição estratégica,
orientação e subjectividade/objectividade.
Os dois primeiros estão implicados, por exemplo, nas frases (i) "Irei ao
Porto amanhã" e (ii) "Chegarei ao Porto amanhã": o locutor
descreve o movimento previsto, em (i), a partir da sua própria posição estratégica,
e, em (ii), a partir da posição estratégica do alocutário. O terceiro factor
diz respeito ao modo (e grau) pelo qual uma entidade ou situação funciona,
assimetricamente, como sujeito ou como
objecto de percepção ou
conceptualização. Por exemplo, o movimento expresso em "O Zé passeou do
outro lado do campo, pelos bosques e no cimo do monte" é concreto e
objectivamente construído (existe uma entidade que se move, inteiramente
distinta do conceptualizador ou locutor, tal como o é o próprio percurso). Mas
em "Ontem houve um fogo do outro lado do rio, que atravessou o bosque e
chegou ao cimo do monte", o movimento expresso é abstracto e
subjectivamente construído (o percurso é parcialmente subjectivo, dado que se
estende do locutor até à localização do fogo; é o locutor quem,
conceptualmente, se move ao longo do percurso; o movimento não é, agora, o
objecto de conceptualização, mas antes uma faceta inerente do processo de
conceptualização).
A última dimensão é a relativa proeminência
de uma entidade em relação a outra(s). Langacker distingue três tipos de
proeminência. Um é a saliência que
resulta de uma construção objectiva
e de uma menção explícita. Um segundo tipo tem a ver com a organização
assimétrica de cada expressão, composta de um perfil
e uma base, e consiste no acto de perfilar
("profiling"). Ou seja, cada expressão, relativamente ao conjunto de
domínios cognitivos que envolve, isto é, em relação à sua base,
distingue determinada sub-estrutura como uma espécie de foco de atenção, e
esta sub-estrutura, chamada perfil, é
o que a expressão designa. Por exemplo, hipotenusa
remete para o conceito de triângulo rectângulo (a sua base) e perfila o lado
oposto ao ângulo recto. Um terceiro tipo de proeminência diz respeito à
organização, também assimétrica, dos participantes de qualquer relação perfilada (expressa por verbos, preposições, adjectivos
e advérbios): um deles é construído como figura,
isto é, como participante ao qual se atribui especial proeminência e à volta
do qual a cena é organizada — Langacker dá-lhe o nome de trajector ("trajector") —; o segundo participante
saliente é a base (ou fundo,
ponto de referência) ou, na terminologia de Langacker, o marco
("landmark"). Por exemplo, não obstante em cima e em baixo
evocarem o mesmo "conteúdo conceptual" e perfilarem
a mesma relação espacial, o seu contraste semântico deve-se ao alinhamento trajector/marco:
"X está em cima de Y" toma Y como marco
para a localização do trajector (X),
ao passo que "Y está em [por] baixo de X" utiliza X como marco
para a localização de Y (o trajector).
O facto de frases como "??O burro está por baixo do rapaz" ou
"??A casa está em frente do carro" serem pouco aceitáveis, em oposição
a "O rapaz está em cima do burro" e "O carro está em frente da
casa", permite depreender, além do mais, que o marco
é normalmente conceptualizado como o elemento mais fixo e mais englobante da
cena.
Estas duas organizações assimétricas perfil/base
e trajector/marco (ou figura/base,
na terminologia de Talmy 1978), correspondentes, de certa forma, à oposição
da psicologia gestaltista figura/fundo
(embora estes conceitos se refiram mais propriamente a relações perceptivas, e
aqueles a relações conceptuais), ocupam um lugar central na teoria de
Langacker e são amplamente utilizadas por outros cognitivistas, tanto na descrição
da semântica das palavras (em particular, preposições)[xxiii]
como na descrição da semântica das construções gramaticais. Por exemplo,
Langacker define, esquematicamente, as noções de sujeito e objecto directo em
termos de, respectivamente, trajector
e marco. E sugere que uma explicação
unificada da diversidade sintáctica da estrutura de uma oração só é possível
se se entender o esquema sujeito-verbo-complemento como um reflexo do princípio
cognitivo geral do alinhamento figura/base
(ou trajector/marco), isto é, numa
oração transitiva, o sujeito corresponde à figura
(ou trajector), o objecto à base
(ou marco) e o verbo expressa a relação entre figura e base.
9. Conclusão
Outros temas e áreas de investigação têm sido objecto da Linguística
Cognitiva. Entre outros, merecem aqui uma referência sumária os vários
estudos sobre as motivações cognitivas e pragmáticas e os mecanismos (reanálise
e analogia, metonímia e metáfora) da gramaticalização (cf. Heine, Claudi
& Hünnemeyer 1991; Traugott & Heine eds. 1991; Hopper & Traugott
1993; Heine 1993; Bybee, Perkins & Pagliuca 1994)[xxiv],
os estudos sobre a mudança linguística (cf. os trabalhos anteriores, Sweetser
1990, Winters 1989, 1992a,b, Nikiforidou 1991 e, relativamente às características,
causas e mecanismos da mudança semântica, sobretudo Geeraerts 1997,
parcialmente referido acima), a investigação da relação entre a forma linguística
e o significado linguístico, sob a rubrica da motivação, mais especificamente na forma do princípio de iconicidade
(isto é, a ideia de que as formas linguísticas reflectem aspectos da mensagem
comunicada; cf. Haiman ed. 1985, Haiman 1985 e, em particular, os princípios de
sequencialidade, proximidade e quantidade icónicas), a análise do discurso
(cf. Liebert, Redeker e Waugh eds. 1997), a perspectiva cognitiva da fonologia
(cf. Taylor 1995: capp.9 e 12, Bybee 1994, Nathan 1996), e implicações e
aplicações pedagógicas no ensino da língua materna e no das línguas
estrangeiras (cf. Taylor 1993).
Como já se pôde depreender ao longo desta exposição, a Linguística
Cognitiva não é propriamente uma teoria única (nem unificada) da linguagem,
mas antes um conjunto de perspectivas e de análises teórica e
metodologicamente compatíveis. Mas, apesar e dentro desta diversidade (que é,
aliás, e além do mais, uma consequência natural do facto de ter surgido, não
de um, mas de vários autores), pode encontrar-se uma certa unidade e uma coerência
geral. A linguagem é estudada como um sistema para a categorização do mundo,
e nela naturalmente se reflectem capacidades cognitivas gerais e a experiência
individual (a começar pela experiência do nosso próprio corpo), social e
cultural. A categorização linguística é, por conseguinte, o objecto
fundamental da análise linguística. O estudo dos processos de categorização
no léxico é tomado como ponto de partida metodológico para o estudo dos
processos de categorização na gramática; consequentemente, a gramática, tal
como o léxico, é concebida como um inventário de unidades simbólicas (significativas). Por outro lado, a função
categorizadora das unidades linguísticas é sistematicamente estudada tendo em
conta ora a estrutura interna das categorias tomadas separadamente (cf. a teoria
do protótipo), ora as estruturas conceptuais que integram várias categorias
individuais em modelos mentais (cf. a teoria da metáfora generalizada e a
teoria dos modelos cognitivos e culturais), ora ainda a relação entre forma e
significado.
Apesar da sua juventude e da sua diversidade, e embora ainda não domine
a linguística actual, a Linguística Cognitiva constitui um paradigma
científico, no sentido de Thomas Kuhn (1962), isto é, um conjunto de ideias e
de hipóteses, de mecanismos de representação, de problemas típicos e soluções
exemplares, que determina a maneira como o linguista (e não só) vê a
linguagem e orienta-o na descoberta e no estudo dos factos linguísticos
relevantes.
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[i] Em Silva (1997: cap. 1), pode encontrar-se uma síntese mais desenvolvida de aspectos teóricos, descritivos e metodológicos da Semântica Cognitiva.
[ii] Sobre esta oposição fundamental entre a Linguística Cognitiva e a(s) linguística(s) "autónomas(s)", quer estruturalista quer gerativista, cf. Taylor (1995: 16-20) e Vandeloise (1991).
[iii] Para uma visão geral da Ciência Cognitiva (e uma visão integrada das várias ciências cognitivas), veja-se Gardner (1985) e, mais recentemente, Flanagan (1991) e De Mey (1992).
[iv] Grande parte da investigação em Psicologia Cognitiva tem procurado descrever a arquitectura geral da mente, os mecanismos de processamento e transformação da informação e, mais recentemente, a natureza simbólica ou sub-simbólica (neurológica) do sistema cognitivo. E a Psicolinguística tem-se concentrado na especificação da estrutura do processador da linguagem e dos mecanismos que operam nas representações linguísticas.
[v] Posição que Lakoff (1987: xiv) caracteriza assim: "Thought is embodied, that is, the structures used to put together our conceptual systems grow out of bodily experience and make sense in terms of it; moreover, the core of our conceptual systems is directly grounded in perception, body movement, and experience of a physical and social character". É, provavelmente, em Johnson (1987) que se encontra a descrição mais elaborada desta posição filosófica. Sobre a importância cognitiva do "embodiment" (incorporação) e sobre a mente incorporada, ver, também, Varela, Thompson & Rosch (1992) e Damásio (1995: cap. 10).
[vi] Rosch e Lakoff (1987: 5), entre outros, rotulam esta concepção de aristotélica, devido à distinção aristotélica (e escolástica) entre atributos essenciais e atributos acidentais, na base da qual a verdadeira definição de um conceito deveria ser constituída pelos seus atributos essenciais. Trata-se, porém, de uma qualificação imprópria, visto que em Aristóteles e na tradição filosófica ocidental se encontram reflexões ou mesmo concepções sobre a categorização compatíveis com a moderna teoria do protótipo. A este propósito, ver, de novo, Swiggers (1988) e Geeraerts (1988a).
[vii] A (longa) definição pretensamente "discreta" que Wierzbicka (1985: 299-300) propõe para fruit (fruto) não o é de facto. Várias das propriedades definidas por Wierzbicka, ou não são suficientemente genéricas, ou não são específicas (capazes de excluir os não-frutos): por exemplo, '(os frutos) crescem como partes de certas coisas que se desenvolvem fora da terra' aplica-se tanto a frutos como a alguns vegetais; 'são bons para se comer cozinhados com açúcar, ou cozinhados como parte de algumas coisas que têm açúcar', mas também se usam certos vegetais em certos tipos de bolos; 'têm a parte de fora (pele) mais dura do que as partes de dentro', mas isto não serve para o morango, que, além do mais, propriamente não tem pele; 'contêm pequenas partes, separadas de outras partes, que não são boas para se comer e que, lançadas à terra, fazem crescer coisas da mesma espécie', mas não o morango nem a banana; 'comem-se sem ser necessário cozinhá-los ou pepará-los', mas não o limão; 'têm muito sumo', mas não a banana.
[viii] Sobre esta complementaridade, ver, também, Taylor (1990, 1995: 65-68, 253).
[ix] Mas Geeraerts, Grondelaers & Bakema (1994: 134-146) afirmam que esta "hipótese do nível básico", como nível de saliência onomasiológica, não é universalmente válida, essencialmente porque a saliência onomasiológica pode situar-se a qualquer nível de uma hierarquia lexical. Tomando o conceito de "entrenchment" (fixação, ancoragem) de Langacker (1987: 59-60), os mesmos consideram que determinada categoria é onomasiologicamente saliente se, através do uso, estiver ancorada no conhecimento linguístico dos falantes.
[x] Em Silva (1992), pode encontrar-se uma pequena descrição da acção da mtáfora e da metonímia no léxico do Português.
[xi] É claro que metáfora e metonímia não-generalizadas, poéticas ou literárias, são também fenómenos conceptuais, cognitivos.
[xii] De notar que cada metáfora ou metonímia conceptual é uma categoria que se pode manifestar em várias expressões linguísticas, ou, dito inversamente, diferentes expressões podem instanciar uma mesma metáfora ou metonímia conceptual.
[xiii] Sobre a interacção metonímia-metáfora no mesmo domínio da "acção linguística" (ou comunicação verbal), veja-se também Goossens et al. (1995).
[xiv] Barcelona (1997) vai mais longe, ao defender que qualquer metáfora (mesmo as metáforas sinestésicas, que Taylor 1995 considera como independentes da metonímia) depende conceptualmente de uma metonímia. Trata-se de uma hipótese polémica: alguns cognitivistas, embora reconheçam que em muitos casos a metonímia é a base da metáfora, rejeitam-na e outros preferem considerar que a diferença cognitiva entre metáfora e metonímia é bem mais pequena do que tradicionalmente se assume.
[xv] Sobre a linguagem das emoções, veja-se, também, a recente colectânea editada por Niemeier & Dirven (1997).
[xvi] Estes esquemas imagéticos de deixar incorporam alguns dos esquemas imagéticos referidos acima, nomeadamente: ligação, contacto, separação, contentor, parte-todo, bloqueio, remoção do bloqueio, ausência de bloqueio, afrouxamento, embora, atrás, de lado, de fora.
[xvii] Para um estudo recente sobre a contribuição da metáfora para os modelos culturais, veja-se Shore (1996).
[xviii] Em Silva (1995a,b), pode encontrar-se uma introdução (e aplicação) à teoria gramatical de Langacker.
[xix] Mais restritamente no domínio da sintaxe, vejam-se, também, os contributos de Croft (1991) e de Deane (1992).
[xx] Sobre a transitividade, na perspectiva cognitiva, ver também Rice (1987) e Almeida (1995).
[xxi] Sobre a causatividade em geral e, em particular, a causatividade de deixar, veja-se Silva (1997: cap. 5).
[xxii] Cf., mais adiante, uma complementação da caracterização que se segue, através das noções de "trajector" e "landmark".
[xxiii] Ver, por exemplo, Vandeloise (1986), Brugman (1989) e Zelinsky-Wibbelt ed. (1993).
[xxiv] Em Silva (1996), pode encontrar-se uma síntese da perspectiva cognitiva da gramaticalização.